Vale a pena ler...
Publicado domingo, 3 de janeiro de 2010 18:22 por Pedro Doria no Caderno Link, do jornal O Estado de São Paulo.
O Irã não é um país típico do Oriente Médio. Lá, diferentemente de cantões como Emirados ou Arábia Saudita, há uma classe média urbana não muito diferente da nossa. Tanto homens quanto mulheres vão à universidade. As moças usam minissaias por baixo dos mantões, piercings, todos assistem à BBC pela televisão e encontram online o noticiário que a imprensa oficial não publica.
No país xiita em que a juventude vai às ruas protestar por um governo mais aberto e comunica ao mundo o que se passa via Twitter e Facebook, também a ditadura entende de tecnologia. O aiatolá Khamenei tem site e o presidente Ahmadinejad bloga. Os dois comandam um governo truculento que bate nas ruas e usa a rede para ameaçar.
A divulgação dos protestos nas ruas de Teerã vem sendo tocada, ao redor do mundo, por jovens expatriados iranianos. Leem em persa os informes que seus pares enviam, vertem para o inglês, francês ou espanhol e distribuem pelas redes sociais.
Lá, não são lidos apenas por quem quer ver a ditadura dos aiatolás no chão. A jornalista Farnaz Fassihi, do Wall Street Journal, entrevistou mais de 90 iranianos que vivem fora do país e foram ameaçados à distância por seu governo.
Em um dos casos, a mãe de um estudante de mestrado iraniano que vive nos EUA ligou avisando que seu pai fora preso. A não ser que ele suspendesse seu ativismo online, algo pior poderia acontecer.
Outro rapaz foi detido no aeroporto de Teerã quando estava voltando para casa. Pediram que ele entrasse em sua conta no Facebook na frente das autoridades. Mentiu, disse que não tinha. Os policiais não se fizeram de rogados: abriram o Google, digitaram seu nome, restringiram a busca para o site da rede social. E lá estava seu perfil. Neste caso, confiscaram-lhe o passaporte.
Farnaz é uma jornalista com mais de dez anos de experiência cobrindo ditaduras e conflitos no Oriente Médio. Criada nos EUA, é filha de iranianos que fugiram do país quando a ditadura dos aiatolás substituiu a ditadura dos xás. Criada na diáspora, sente na pele o impacto das ações recentes.
Acontece que, até hoje, os iranianos na diáspora sempre se sentiram à vontade para reclamar da brutalidade do regime instaurado em seu país. Nunca lhes ocorreu que, mesmo à distância, pudessem sofrer.
Só que todos têm primos, tios, avós, amigos – gente querida que ainda mora por lá.
Usar a internet para ameaçar à distância é novo. Até hoje, dissidentes chineses, birmaneses, árabes, etíopes, cubanos, gente vida de ditaduras as mais diversas sempre se sentiu à vontade para dizer, na rede, o que dentro de seu país não pode circular porque há censura.
A ditadura iraniana vive um momento de tensão. O número crescente de protestos indica que a insatisfação é grande. Nestes momentos, ditaduras costumam se fechar, mostram seus dentes.
E a internet, arma comum de quem protesta, pode também revelar-se uma inimiga traiçoeira.
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
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