"Segundo a voz de quem manda, os países do sul do mundo devem acreditar na liberdade de comércio (embora não exista), em honrar a dívida (embora seja desonrosa), em atrair investimentos (embora sejam indignos) e em entrar no mundo (embora pela porta de serviço). Entrar no mundo: o mundo é o mercado. O mercado mundial, onde se compram países. Nada de novo. A América Latina nasceu para obedecê-lo, quando o mercado mundial ainda não se chamava assim, e aos trancos e barrancos continuamos atados ao dever de obediência. Essa triste rotina dos séculos começou com o ouro e a
prata, e seguiu com o açúcar, o tabaco, o guano, o salitre, o cobre, o estanho, a borracha, o cacau, a banana, o café, o petróleo... O que nos legaram esses esplendores? Nem herança nem bonança. Jardins transformados em desertos, campos abandonados, montanhas esburacadas, águas estagnadas, longas caravanas de infelizes condenados à morte precoce e palácios vazios onde deambulam os fantasmas. Agora é a vez da soja transgênica, dos falsos bosques da celulose e do novo cardápio dos automóveis, que já não comem apenas petróleo ou gás, mas também milho e cana-de-açúcar de imensas plantações. Dar de comer aos carros é mais importante do que dar de comer às pessoas. E outra vez voltam as glórias efêmeras, que ao som de suas trombetas nos anunciam grandes desgraças."
Eduardo Galeano
Prefácio de 'As veias abertas da América Latina'
Montevidéu, 2010.
"Com cargas de lança e golpes de facão foi que xs despossuídxs, ao despontar do século XIX, lutaram contra o poder espanhol nos campos da América. A independência não xs recompensou: traiu as esperanças dxs que tinham derramado seu sangue. Quando chegou a paz, com ela foi reaberto o tempo da infelicidade. Os donos da terra e os grandes mercadores aumentaram sua fortuna, enquanto aumentava a pobreza das massas populares."
quinta-feira, 29 de março de 2012
Assinar:
Postar comentários (Atom)
0 comentários:
Postar um comentário